Somos Engenharia UFRJ

Acabo de concluir o curso de engenharia elétrica na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sempre tive vontade de escrever sobre a minha experiência como universitária, uma vez que minha vida mudou consideravelmente desde que passei no vestibular. Entretanto, não tinha certeza se minha visão de graduação seria justa, afinal cada um faz um curso, leva um tipo de vida, tem um certo QI, fez ensino médio em um determinado colégio. Assim, é mais do que injusto eu chegar aqui e falar apenas de mim e do que eu vivi.

A intenção desse post é mostrar a visão de dentro. Uma visão não comercial, apenas sincera, de quem estuda engenharia na UFRJ. Digo isto, porque eu não sabia o que me esperava. E em conversas de bar, percebi que os outros não tinham noção do que era estudar engenharia e tinham uma visão de que tudo é dinheiro e flores. Eu gostaria de falar de estudantes de engenharia como um todo, mas a minha divulgação de questionário não atingiu maiores camadas, de modo que 53/59 que responderam são/foram alunos do centro de tecnologia do Fundão. Então, você que está pensando em ir para o Fundão vem ler as opiniões dos alunos e ex alunos de engenharia do CT e você que estuda lá ou não, confira se está de acordo.

Apenas um adendo, para os que não sabem existem dois grandes centros de engenharia na UFRJ: A Escola Politécnica [Ambiental, Civil, Básico, Computação e Informação, Controle e Automação, Materiais, Petróleo, Produção, Eletrônica e de Computação, Elétrica, Mecânica, Metalúrgica, Naval e Oceânica e Nuclear] e a Escola de Química [Alimentos, Bioprocessos e Química]

Eu tirei essa foto na minha primeira semana de UFRJ

Eu fiz cinco perguntas diretas (em negrito estão as minhas respostas):

1) Qual é a sua engenharia? Elétrica. 

A partir dessa pergunta posso dizer que responderam as questões seguintes aluno/ex-alunos das engenharias eletrônica, civil, de controle e automação, elétrica, naval, metalúrgica, materiais, mecânica, de produção, química, de computação e informação e petróleo.

2) Foi sua primeira opção? Não, terceira.
Dos que responderam ao questionário, 67,9% afirmaram que sua engenharia foi primeira opção. 
3) Você a recomendaria? Sim, depois de um tempo acabei gostando da elétrica. Não de tudo (até porque acho impossível), mas de grande parte. 
Dos que responderam positivamente a questão anterior, 80,5% disse que recomendaria sua engenharia sem sombra de dúvidas. Daqueles que não cursam sua primeira opção, 76,47% disseram que recomendaria a engenharia que é seu curso atual.
Alguns comentários:
[Engenharia Química] “Recomendaria. Apesar dos pesares, a paixão é grande, é uma área linda. É uma ciência muito abrangente e com espaço para muitas vocações.” – João Ribeiro Pacheco

[Engenharia Elétrica] Sim, apesar da grande dificuldade que passo, ainda acho que é uma excelente escolha.” – Daniel Duque Estrada Borim

[Engenharia de Computação e Informação] Sim. Se o estudante gosta desta área, é um curso que tem muito a acrescentar. É uma excelente formação acadêmica.” – Aluno(a) da ECI

[Engenharia Eletrônica]Depende! Eu gosto! Mas percebo que todo mundo que se forma em eng. eletrônica não trabalha com isso – mesmo quem gosta, acaba não achando emprego. Mas a maioria acaba desistindo dela do meio pro final da graduação. E vira consultor ou analista de banco – ganha mais!” – Gabriela Chaves
[Engenharia Civil] “Sim, pois acho que é uma engenharia muito tradicional e presente no dia a dia das pessoas. Entretanto, aconselharia apenas para quem gosta e tem uma boa básica de física e matemática, da mesma forma que outras engenharias.”– Diego Filipe C. de Souza Queiroz
[Engenharia de Produção] “Sim. É uma escolha muito pessoal, mas a engenharia de produção está associada a uma ampla diversidade de áreas de atuação, em sua maioria com alta demanda.” – Aluno(a) da Engenharia de Produção
[Engenharia de Controle e Automação] “Se alguém quer ter um perfil técnico porém generalista é uma boa engenharia. Graças a ela consigo entender diversas áreas distintas e liga-las.” – Matheus Sales T. B. Vieira
[Engenharia Naval] “É uma faculdade que exige muita dedicação, e o mercado de trabalho está bem ruim no momento. Se você só quer um diploma de engenharia corra para outros cursos. Em relação a qualidade de ensino, você tem base suficiente para aprender sobre quase tudo, desde que seja interessado.” – Aluno(a) da Engenharia Naval
[Engenharia de Petróleo] “Pra quem realmente gosta, porque as matérias são bem puxadas (sic), e não são poucas. Muita química!” – Aluno(a) da Engenharia de Petróleo
4) Você teve/tem dificuldades durante a sua graduação? Quais? MUITAS. Mas em especial: aprender sozinha algumas matérias (não sou auto didata) e ter que ficar longe da minha família (primeiros quatro anos de graduação).
Apenas 3 dos 55 alunos afirmaram não ter tido quaisquer dificuldades durante a graduação, até o momento. Os demais responderam como sendo dificuldades – em ordem decrescente de mais citadas: Grande quantidade de conteúdo; falta de organização pessoal para conseguir estudar; falta de didática e de interesse de alguns professores, o fato de o curso ser muito difícil; greves; falta de recursos financeiros para se manter no Rio de Janeiro (estudantes de outras cidades/estados). 
Muitos ainda citaram os problemas de segurança no Campus, o transporte público precário, o fato de se sentirem desmotivados e inferiores intelectualmente frente a outros alunos (I’ve been there), estarem sofrendo de perda de autoconfiança e baixa autoestima (I’ve been there too).
Alguns comentários a essa pergunta:
“Faltou um pouco de motivação e uma visão de aplicação em ideias novas e úteis para a indústria.” – Matheus Sales T. B. Vieira, aluno da Engenharia de Controle e Automação
Grade curricular muito trancada e rígida, professores que não sabem ensinar e ainda ficam botando a culpa das reprovações nos estudantes, provas incompatíveis com as aulas, uma carga horária absurda quase impossível de conciliar com ic e estágio ou com uma vida que vá alem da engenharia, nível de cobrança no ciclo básico muito mais alto do que realmente é usado no profissional ou mesmo no trabalho, professores intransigentes que não explicam o que vai ser cobrado nem como e dão instruções e notas de última hora, muita pressão e pouca didática, falta de tempo para realizar atividades complementares à graduação (seminários, cursos de extensão ou de língua, etc), falta de comunicação da universidade não dando informações de como funcionam seus programas ou a sua parte institucional ou de quais são os direitos dos alunos deixando os alunos num grande limbo, falta de orientação. ” – Aluno(a) da Engenharia Civil
“Claro, há casos em que os professores parecem possuírem atitudes que não condizem com a boa prática de ensino. Além disso, a grade é muito extensa e engessada, possuindo disciplinas que muitas vezes não abordam o tema do ponto de vista da engenharia, isso não se dá somente no ciclo básico mas também no profissional, para piorar ocorre pouca flexibilização do horário, tudo isso junto acarreta em desestímulos constantes ao longo do curso. Assim, parece que se instituiu que para se alcançar algo na UFRJ deve-se prezar pelo princípio do “Apesar de (…)”, ou seja se ajuda a crescer criando barreiras, para que a pessoa possa transpô-las..  Não que a faculdade precise ser mais fácil, porém deveria ser mais objetiva.” – Cauê Doval, aluno da Engenharia Elétrica
“Sim. O nível de dificuldade é bem maior (e deve ser) que o colégio. Cabe ao aluno saber lidar com esse “gap” de conhecimento, o que pode ser difícil para muitos, exigindo mudanças de hábitos de estudos, etc., como foi para mim. Faça engenharia somente se tiver interesse na área. Se for só pelo papel eu escolheria outra área.” – Aluno(a) da Engenharia Naval
Sim, o ciclo básico que é comum pra todas as engenharias é bem cansativo. Muitas vezes algumas coisas que aprendemos parecem que não vão servir pra nada e isso acaba desmotivando muita gente. No começo não temos tanta oportunidade de ter contato com as matérias do curso que escolhemos, que são vistas mais no ciclo profissional. Participar dos projetos de extensão da universidade é muito importante para se sentir mais envolvido com o curso e fazer novas amizades, isso foi algo que me ajudou muito a não me desmotivar.” – Cláudio Henrique Quintella Soares de Oliveira, aluno da Engenharia de Produção
5) Está otimista em relação ao mercado de trabalho? (Conseguiu estágio/emprego rápido?) Sinceramente? Não estou muito otimista não. Na época de estágio foi complicado para mim porque eu não tinha tempo para conseguir fazer 6h/dia de estágio especialmente por morar em Petrópolis. Fiz estágio em um laboratório da Universidade. Sei que aprendi bastante coisa lá, mas as empresas não veem isso como experiência. Então, eu sou recém formada, sem experiência a procura do primeiro emprego em uma época em que a galera está sendo demitida. Tá difícil. 

Dos que responderam a esta pergunta, 56,52% responderam não estar otimistas em relação ao mercado de trabalho. 
Comentários:

“A carga horária das disciplinas são bem ruins. Achei que dificulta muito arrumar um estágio. Eu ainda não o fiz porque tenho aula todos os dias em horário quase que integral principalmente na parte da tarde” – Aluno(a) da Engenharia Elétrica
“Não. Nem rápido nem devagar, não consegui nada.” – Gustavo Pacheco, formado em Engenharia Elétrica
“Não estou otimista. Na procura por estágio, consegui relativamente rápido pois fiz em um laboratório interno à instituição.” – Sersan Dias Guedes, formado em Engenharia Elétrica 
“Não muito. Estou procurando estágio há 4 meses e está difícil.” – Aluno(a) de Produção
“Atual? Ago/2015? Nem um pouco! Sem incentivo pra desenvolvimento da ciência e tecnologia, dólar em alta, cortando bolsas de mestrado. Consegui emprego antes mesmo de me formar e já com CREA e tudo, mas foi muita oração! E a sorte do meu namorado conhecer meu chefe! Mas também tenho que contar que fiz muitas entrevistas de emprego – diria umas 10 – e quatro concursos – nos quais eu ficava em boas colocações, porém não o suficiente para ser chamada… #sad” (sic) –  Gabriela Chaves, formada em Engenharia Eletrônica
“Não estou otimista. Consegui estágio rápido, mas foram tarefas pouco inspiradoras. Tenho amigos que estão há um ano sem emprego porque não querem vaga de programador. O mercado vê, muitas vezes, o engenheiro de Computação como um programador que vai receber R$1800,00 – estimativa –  por mês.” – Aluno(a) da Engenharia de Computação e Informação
“As pessoas falam muito que o mercado está mal mas eu acredito que sempre vai haver vaga para quem se prepara. Eu acredito que para mim não será difícil arrumar emprego.” – Matheus Sales T. B. Vieira, formado em Engenharia de Controle e Automação
“Quando sair da faculdade já terá estourado a bolha das olimpíadas então não estou muito otimista, por enquanto ainda há uma boa quantidade de estágios (apesar de ser muito difícil pegá-los por causa de limitações impostas pela universidade e da carga horária de aulas) mas não sei quanto isso vai durar…” – Aluno(a) de Engenharia Civil
“Consegui estágio, mas não estou otimista. Porém pretendo seguir o ramo acadêmico e o mercado não me preocupa” – Aluno(a) de Engenharia Elétrica
“Não. Consegui porque fiz empresa júnior (sem remuneração) que abriu várias portas em seguida, devido a experiência adquirida e indicações “ –  Patricia Moraes, aluna de Engenharia Química 
Abri espaço para comentários gerais também. Eis alguns deles:
“A graduação é muito diferente do mercado de trabalho. A engenharia é linda e carente de profissionais de ponta e éticos no Brasil.” – Formado(a) em Engenharia de Materiais
“Um conselho que dou aos novatos é que apesar da grande dificuldade que passamos a UFRJ ainda é uma grande escolha, assim como a engenharia. Estude bastante, faça exercícios recomendados e busque provas antigas caso seja possível, pois a sala de aula é um nível, porém a prova é outro.” – Daniel Duque Estrada Borim, aluno de Engenharia Elétrica
“Mesmo com o mercado estando frio atualmente, considero que vale muito a pena cursar a graduação em engenharia, pois se trata de um investimento (inclusive pessoal), com boa expectativa de retorno futuro.” Sersan Dias Guedes, formado em Engenharia Elétrica
“Só queria reforçar a ideia de não escolher a engenharia só porque dá dinheiro, isso dificilmente é suficiente para motivar uma pessoa a ter um bom desempenho considerando todas as dificuldades enfrentadas, a maioria dessas pessoas ou largam o curso ou demoram 7-8 anos pra se formarem então é melhor pegar outro curso logo e se formar em quatro anos e começar a ganhar dinheiro três ou quatro anos mais cedo. E mesmo se você se interessar no curso e for bom aluno é bom saber que dificilmente vai se formar em cinco anos, mesmo as pessoas que eram foda no colégio e que vão bem na engenharia não se formam em cinco anos (ex: tem caso em que se vive reprovar UMA matéria já atrasa em um semestre sua graduação). Não conheço ninguém que se formou em cinco anos em engenharia na UFRJ na verdade” – Aluno(a) de Engenharia Civil
“Pra fazer engenharia tem que gostar do que faz, tem muitas matérias chatas e difíceis, portanto precisa ter em mente que vai ter que estudar muuuuito, mas que vai valer a pena (: “(sic) – Aluno(a) de Produção
Bem, as opiniões estão ai, mais claras impossível. Vê-se que a maioria (uso esse termo apesar de detestá-lo, porque são 53 pessoas que mostraram sua opinião contra centenas que não se sabe) concorda nos mesmos aspectos. Pediram para comentar sobre a importância da engenharia para a sociedade, e se isso não é claro, é bom que fique. Independente do sobrenome da engenharia, ela desempenha papel importante nos mais variados campos: da comida que você come até os satélites que rodeiam o globo terrestre. Se está a sua volta tem engenharia envolvida direta ou indiretamente.

Eu, Raquel, realizei um grande sonho entrando para a Poli. UFRJ sempre foi o que eu queria, as outras não me interessavam. Acredito ter pecado muito em não ter conhecido melhor onde eu estava entrando, porque sofri muitas decepções. Eu tenho muito orgulho do diploma azul e de dizer que fui aluna no Centro de Tecnologia. Por outro lado, me sinto limitada em uma série de pontos. Tive uma experiência recente que me mostrou claramente o que eu não quero e que viver como acadêmico na UFRJ não é para mim. Mas, Graças a Deus, que tantos se identificam com isso. O que seria do azul se todos gostassem apenas do amarelo? Hoje, como formada, se eu pudesse escolher uma vida para começar amanhã, eu queria trabalhar com Engenharia – em qualquer forma que ela tenha, seja na realização de projetos elétricos, seja no planejamento de geração para daqui dois meses, seja com consultoria a empresas auxiliando no fator de potência e demais problemas que a indústria possuiu, seja em projetos de distribuição, seja em análise de planilhas, balanços, investimentos,.. – e eu daria aula feliz, não na UFRJ, mas em qualquer instituição particular e até mesmo em escolas de ensino médio, não sei das possibilidades. No frigir dos ovos, como diz minha avó, não sei bem quem vai me dar a primeira oportunidade séria na vida. Mas tenho fé, a gente precisa ter, não é mesmo? Por pior que seja o cenário atual, percebi que é importantíssimo acreditarmos no nosso próprio potencial. 

[Para todos] A engenharia é isso. Seja ela qual for, um mundo de expectativa e uma ou outra realidade. Dias desses li no Linkedin um post do Filipe Barretto – entrou comigo na elétrica, é hoje aluno da Eletrônica e co-fundador da Kendoo Solutions – sobre a importância de ter ou não um diploma, é um texto indireto que te deixa a escolha. Para quem quiser ler o texto e eu muito recomendo ele está aqui.
[Para os que estão escolhendo]O importante, e como foi dito por alguns ali em cima, não vá pelo dinheiro, porque não é certo dele vir. Vou ser piegas e dizer que você deve fazer por amor. E mesmo que ame, leve em consideração tudo o que leu até aqui e veja onde você vai se encaixar melhor. [Para os que começaram e estão em dúvidas] Nunca é tarde para recomeçar. 
Quaisquer maiores informações comentem aqui embaixo ou mandem e-mail para meninaolhosdeaguia@gmail.com
Beijos e sucesso para nós!

PS: Por coincidência na mesma semana que eu colei grau, a Milena da Mecânica colou também, em quatro anos e meio, pasmem. Espero num futuro próximo postar uma ‘entrevista’ com ela. Para quem quiser saber como que se faz essa mágica e eu também estou curiosa, aguardem! 🙂